quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

William Blake: A visão do último julgamento


Se por alguma razão os seus pés o(a) trouxerem até à nossa biblioteca, empregue mais uns centímetros de passos e caminhe pelo espaço da leitura, deixe que o fluxo automático corporal das mãos agarre um pedaço de páginas, um livro, e deleite-se no profundo sonho das palavras.
Mas caso lhe falte o ímpeto audacioso da escolha, deixamos a sugestão…

Por entre as demais estantes da sala de leitura, e as prateleiras que as compõem, residem as profecias do último dos antigos e o primeiro dos modernos…
William Blake, nasceu, no distrito do entretenimento londrino, Soho, a ler e a desenhar. Decorria o ano de 1757 e o mês de Novembro, após 28 dias. Filho de um fabricante rico de roupas inferiores, entenda-se meias, e de uma mãe atenta à sua educação, Blake desde cedo trocou impressões com a arte. Parte das mesmas através de visões, como o próprio descrevera - ora diálogos com Deus, ora anjos que penduravam lantejoulas numa árvore - e que se viriam a associar à sua criatividade geradora de imagens.
Depois de frequentar a escola de desenho de Henry Pars, tornou-se aprendiz de James Basire, o famoso gravador inglês.
O seu interesse pelo estudo da construção arquitectónica gótica, naqueles seguintes anos, aproximou a sua sensibilidade estética ao gosto medieval. Para além de um profundo contacto com as páginas da Bíblia, que viria a tornar-se uma fonte de inspiração até ao limite dos seus dias.
William Blake frequentou, ainda, a distinta e respeitada “Royal Academy” na Old Somerset House, junto à famosa rua Strand (novamente Londres). Aqui ficou patente a sua difícil relação com o presidente da mesma escola, Joshua Reynolds, um convicto generalista artístico, a quem Blake “cuspiu” as seguintes palavras: “Generalizar é ser um idiota; Particularizar é a única distinção de mérito”.
Casa-se com Catherine Boucher, em 1782. Anteriormente, alguém recusara a sua proposta de casamento… infelicidade de um percurso que se tornaria conjugalmente feliz… Catherine seria incasável no apoio ao seu marido.
Os tempos que acompanharam Blake foram historicamente intensos, os derradeiros anos do séc. XVIII… As revoluções americana e francesa e os ideais que as mesmas trouxeram ao colo.
Sempre fora um rebelde, qual “boxeur” num ringue de princípios morais, intelectuais e estéticos. Esmurrava o ascetismo, levava ao chão a hipocrisia. Uma voz solitária… Para alguns, um lunático… Na verdade, um visionário, apóstolo de uma nova ordem, de um tempo a vir.
Na sua obra poética, sempre contextualizada pelas ilustrações que acompanhavam qualquer traço sintáctico, William Blake expandiu uma mitologia própria através de versos ritmados ao som de um batuque místico, onde a consciência social se apresentava pelo silêncio entre as palavras, pelo compasso acidentado de uma nova doutrina, um novo pensamento onde a total irmandade humana tomasse sentido…


“Trago uma lei de amor, de paz e de unidade,
De clemência, piedade e compaixão; ´
Escolha cada um sua morada,
Sua mansão antiga e infinita,
Uma só ordem, um só prazer, um só anseio,
Um flagelo, um peso, uma medida,
Um Rei, um Deus, uma só Lei”


(in “O Livro de Urizen”)

A religião pessoal de Blake centrava-se na alma do Homem, que num estado de alegria e de conjugação com o próximo, representaria o Deus glorificado. Para ele a corrente cristã acorrentava o ser ao desfalecimento de um desejo de plenitude terrestre. A natureza do ser humano seria prisioneira da sua própria devoção, em desdém da consciência do seu papel no mundo interior e exterior.

“Não existe uma religião natural. Todas as religiões são uma só.”


As explícitas figuras divinas que habitavam nos seus escritos, eram nada mais que recortes de viagens ao interior da mente humana, uma representação de um futuro, de uma introspecção pessoal em busca da resposta para a existência do ser… O nosso interior, revelava Blake, continha a mesma.
Poeta-pintor, William Blake trabalhou até chegar um último suspiro seu… talvez um último traço ou verso…
Trabalhava na ilustração d’ “A Divina Comédia” de Dante. Revivera o “Inferno” através dos pingos de aguarela que desciam os pincéis…
No dia da sua morte… 12 de Agosto, 1827… 70 anos de vida… Um último apego ao papel. A face do seu anjo Catherine dispunha-se pelos poros da folha. O suspiro não viera. O canto e o verso tomaram-lhe a forma. Talvez uma visão do Paraíso...
A tinta inerte na mesa, o Verão depois do fogo passional… profeticamente unidos.


“Porque tudo o que vive é sagrado”


(in “A União do Céu e do Inferno”)


Na biblioteca encontra-se uma das obras que compõem o legado de William Blake. Uma sugestão para os que sentem o prazer da leitura, um convite a todos os visitantes.


Obra disponível:

A União do Céu e do Inferno – 1793 (versão bilingue)

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

O Coelho Botelho de Pierre Coran

Está a decorrer esta semana na Biblioteca a primeira Hora do Conto do ano 2010, dirigida a todos os Jardins de Infância. Tratasse do Coelho Botelho, a contar uma das suas aventuras, como nos apresenta as fotos existe um biombo com o personagem, mas principalmente apresentamos as imagens do livro, pois a criança através do livro que lhe é apresentado recebe um número de informações audiovisuais e através do olhar aprende as formas, as cores e as imagens. Este é um meio de estimular a aprendizagem, uma vez que ela se interessa pelo livro movida pelo desejo de conhecer o seu conteúdo como histórias, informações e etc. O texto é em rima o que os encantam com as poesias, que lhes parecem (e na verdade são) brincadeiras com as palavras.


No final de cada sessão é oferecido um molde igual a este para as crianças construírem pintarem e brincarem com ele juntamente com os pais e/ou Educadoras. No meio da brincadeira as crianças estimulam ao mesmo tempo a sua imaginação que visa dinamizar e animar um conto ou uma pequena história apenas.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

António Borges Coelho:
A luta apaixonada pelas partículas do Tempo

Se por alguma razão os seus pés o(a) trouxerem até à nossa biblioteca, empregue mais uns centímetros de passos e caminhe pelo espaço da leitura, deixe que o fluxo automático corporal das mãos agarre um pedaço de páginas, um livro, e deleite-se no profundo sonho das palavras.
Mas caso lhe falte o ímpeto audacioso da escolha, deixamos a sugestão…

Por entre as demais estantes da sala de leitura, e as prateleiras que as compõem, a História respira as suas imagens pelos poros dos livros em pó. Urge, então, revisita-la através de António Borges Coelho, do seu primeiro olhar, o de um navegante pelos mares do tempo.
António Borges Coelho nasceu a 7 de Outubro de 1928 entre as gentes de um Trás-os-Montes profundo… “Oh Terra de Encanto”, local perpétuo do monumento milenar, outrora deus celta. “Murça”, tinham as paisagens rurais e os caminhos de terra que o levavam esse nome.
As linhas rectas do seminário surgiram-lhe em frente aos pés, caminhou até libertar os seus próprios passos. Esfolhando as páginas de Bento Jesus Caraça nasceram asas no seu torso. O voo terminaria apenas na cidade da luz branca e das lajes melancólicas, a capital Lisboa.
Integrou-se no Movimento da Unidade Democrática Juvenil (MUD Juvenil) entre intelectuais, jovens estudantes e trabalhadores. E tal como o autor de “Conceitos Fundamentais da Matemática” Borges Coelho era simultaneamente as duas coisas.
A idade adulta vislumbrava os primeiros olhares, marcados pela cegueira da ditadura, pelo pano negro do fascismo de Salazar, que ocultava o horizonte da liberdade. António Borges Coelho não quis simplesmente limitar-se a fechar os seus olhos… Arriscou a vida como o simples pescador que se oferece ao mar. Lutou contra à tortura física e do intelecto. Sentiu a alma dos humilhados, o seu corpo dorido da prisão. Nas suas próprias palavras…
“ (…) Mulheres e homens que nada tinham senão o corpo e a mente, e indicavam, com o seu sacrifício, que há momentos em que é preciso dizer não para que a água da vida corra limpa. “
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade Lisboa e doutorou-se em História Moderna com um estudo sobre a Inquisição de Évora. Mas as suas mãos tocam ainda as folhas da poesia e do teatro…”A História e a Poesia dão-se muito bem e fazem parte da minha vida”.
A forma como revisita as horas esquecidas na História, de como tudo reformula em visões que não se limitam ao que é já aceite, faz de Borges Coelho um dos maiores historiadores que os livros poderão escrever. Urge, então, revistar as areias que gravam os actos na sua companhia…
"Ser rei o que é?"
António Borges Coelho legou-nos uma vasta e invulgar bibliografia onde, a par dos valiosos e pioneiros estudos sobre a inquisição portuguesa e um passado árabe filtrado na nossa História, se encontram as palavras em versos e em actos.
Na biblioteca encontram-se algumas obras que compõem o seu legado. Uma sugestão para os que sentem o prazer da leitura, um convite a todos os visitantes.

Obras disponíveis:

Clérigos, mercadores «judeus» e fidalgos: Questionar a História II;
Cristão: Novos judeus e Novos Argonautas;
Inquisição de Évora;
Questionar a História: Ensaios sobre a História de Portugal;
Raízes da Expansão Portuguesa.

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