Mário de Sá-Carneiro: “Eu-Próprio o Outro”

Se por alguma razão os seus pés o(a) trouxerem até à nossa biblioteca, empregue mais uns centímetros de passos e caminhe pelo espaço da leitura, deixe que o fluxo automático corporal das mãos agarre um pedaço de páginas, um livro, e deleite-se no profundo sonho das palavras.
Mas caso lhe falte o ímpeto audacioso da escolha, deixamos a sugestão…

Por entre as demais estantes da sala de leitura, e as prateleiras que as compõem, residem os versos…

“Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim”


… esses que cheiram a solidão e sabem a incompreensão.

Os passos de Mário Sá-Carneiro, solidamente marcados nas areias de um passado não tão distante quanto as suas palavras nos separam, são, também, visíveis e palpáveis na nossa biblioteca.
Mário de Sá-Carneiro nasceu, a 19 de Maio de 1890, na cidade da luz branca e das lajes melancólicas, a capital Lisboa. Filho de uma família da alta burguesia, o seio que o rodeava era economicamente abastado. Foi privado do leito maternal com apenas dois anos, a sua mãe falecera e este seria entregue aos ostracizados cuidados dos avós em Camarate. O seu pai dedicara-se a uma vida de viagens.
Desde os doze anos que os versos poéticos se tinham entranhado na sua pessoa. Viria a conhecer outra de nome Fernando (Fernando Pessoa), uma alma gémea na amizade e ADN da genialidade.
Paris tornar-se-ia a sua cidade, o curso de Direito em Coimbra já fazia parte de um passado que não queria tomar como seu. A vida boémia dos cafés, das ruas de Montmartre, da sua solitude e alucinação, fora abraçada como a entrada para uma vida que tardava em se adaptar ao mundo. A Primeira Guerra Mundial fez Mário de Sá-Carneiro voltar a Portugal, uma pequena região, “má culta” e pobre, da grande Europa, moderna e modernista.
Juntamente com Pessoa e Almada Negreiros, integrou o primeiro grupo modernista português, anunciador do cosmopolitismo e das vanguardas europeias. “Orpheu”, a revista que lançaram, escandalizava o país, mas faltou “um pouco mais de sol / um pouco mais de azul”, o poeta ainda não se encontrara realmente frente ao espelho.
Mário de Sá-Carneiro não se fez apenas e só de versos. Os romances, os ensaios, também, saíram da caneta segura pelos seus gordos dedos. Mas o que se constrói na solidão? O que se espera ler no papel de uma ânsia inadaptada aos dias? No turbilhão de um palco de personagens, o poeta, ele como seu próprio labirinto, deixou ficar a alma, o olhar sincero de sentir o que via e ver, inconscientemente, o que sentia. Uma dispersão do “eu” no mundo.
Narcísico, confuso, de um delírio perto da alucinação, Mário de Sá-Carneiro gravou na sua escrita as experiências sensórias, a tristeza e a tragédia, a “dor de ser quase”, que o tornou singular mesmo quando atacava, através do jogo de palavras, a gramática.
A imagem de um menino inútil e desajeitado, o “esfinge gorda”, levou o poeta a uma poesia auto-sarcástica que culminaria com a dissolução do ser, o fim heróico do verdadeiro artista, a auto-destruição.
Ano de 1916, durante o dia 26 as chuvas de Abril escorriam carregadas nos beirados das janelas, ou talvez vagos lençóis de luz penetravam umas cortinas gastas de um hotel parisiense de nome Nice no bairro de Montmartre. Junto à cama do quarto desenhava-se uma mesa-de-cabeceira desorganizada pelos frascos que se amontoavam aguardando o acto final, o cair do pano. Agoniado, o poeta apertou cada um dos cinco frascos de arseniato de estricnina e ergue-os tal como Cristo o fez com o seu último cálice…
“Morre jovem o que os deuses amam” (Quem di diligunt adulescens moritur)escreveria Fernando Pessoa, servindo-se da poesia nas Báquides de Plauto.

Na biblioteca encontram-se algumas das muitas obras e edições póstumas que nos dão a conhecer Mário Sá-Carneiro. Uma sugestão para os que sentem o prazer da leitura, um convite a todos os visitantes.


Obras disponíveis:

A Confissão de Lúcio;
A estranha morte do professor antena;
Céu em Fogo;
Loucura;
Obra Poética;
O Incesto;
Palavras de Mário de Sá-Carneiro;
Poesias;
Poesia de Sá-Carneiro.

Publicado pela Município de Murça às 16:44. Arquivado em . Pode acompanhar todas as respostas a esta notícia através do RSS 2.0 Deixe a sua opinião.
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1 comentários em Mário de Sá-Carneiro: “Eu-Próprio o Outro”

  1. Mário de Sá-Carneiro...

    Ele foi - sem dúvida - o Mestre, o Génio; foi: a Apoteose da Vida em Arte. Como O sinto... Compreendo tanto a sua Obra, compreendo tanto a sua Alma que, em verdade, adivinho conhecê-lo... Como se convivesse constantemente com ele.

    E dói-me quando o primeiro pensamento que vem à memória de uma pessoa normal quando o assunto é a geração d'Orpheu se traduz na imagem de Fernando Pessoa, o grande génio (que sem dúvida o é), derrubando a memória de uma Alma que, no seu conjunto com a de Fernando Pessoa, consumava a plenitude da Beleza artística.

    Mário de Sá-Carneiro é o meu Mestre - é muito mais do que um escritor predilecto: é o amigo verdadeiro que possuo.

    Agradeço profundamente este texto aqui publicado - pois que Sá-Carneiro deverá ser sempre recordado como o Anjo das Horas que se grifou na jóia misteriosa que é o Além.

    em 29 de Dezembro de 2009 15:31

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